5. ESPECIAL 18.7.12

1. A MO QUE NO EMBALA O PIB
2.  MELHOR DE MOS DADAS
3. DA MO DE FERRO  MO INVISVEL
4. NAS GARRAS DO LEVIAT ARGENTINO

1. A MO QUE NO EMBALA O PIB
O governo abre os cofres, d incentivos a indstrias escolhidas, amplia os emprstimos dos bancos pblicos e reduz os juros. Mesmo assim, a economia no reage.  um sinal de que o Brasil voltou a esbarrar nos antigos obstculos  melhoria da produtividade.
GIULIANO GUANDALINI

     O real chegou aos 18 anos com um sinal irrefutvel de seu caminho rumo  maturidade. Na semana passada, o Banco Central reduziu a taxa bsica de juros, a Selic, para 8% ao ano.  o valor mais baixo da histria. A importncia desse nmero no fica a. Subtraindo os impostos e as taxas de administrao, investimentos em fundos DI e de renda fixa atrelados  Selic oferecero daqui em diante um rendimento anual em torno de 5%. Em termos de ganho real, ou seja, considerando a inflao esperada de 5%, a rentabilidade ser nula. Os poupadores brasileiros, nos tempos de juros elevadssimos, haviam se habituado a ter ganhos de at 10% acima da inflao sem fazer nenhum esforo, apenas depositando seu dinheiro em fundos de aplicaes em ttulos da dvida pblica. Agora, para obterem remuneraes mais elevadas, tero de procurar investimentos de prazo mais longo e tambm mais arriscados. A economia brasileira, assim, passa a ficar mais parecida com a das naes avanadas.
     A queda nas taxas de juros derruba uma barreira histrica ao desenvolvimento. Os recursos dos poupadores, em vez de dormir sossegadamente na ciranda dos fundos de curtssimo prazo, podero migrar para o financiamento de projetos como a construo de residncias e a renovao da infraestrutura decrpita. A reduo na taxa Selic tem sido acompanhada de um barateamento no custo do crdito para o consumo, principalmente nos bancos pblicos. Alm da queda no custo do dinheiro, o governo lanou diversos pacotinhos de incentivos a determinados segmentos da indstria, como a reduo dos impostos de carros e eletrodomsticos. Houve ainda uma ampliao do caixa do BNDES. Ao todo, foram despejados mais de 100 bilhes de reais na economia desde meados do ano passado.
     Com todos esses estmulos, seria de esperar que a atividade estivesse avanando em capacidade plena. Nada mais longe da realidade. O PIB permanece em estado de semiestagnao desde o fim do ano passado. Para os analistas mais certeiros do setor privado, a economia no crescer mais de 2% neste ano. Diariamente surgem notcias de empresas que postergaram projetos de investimentos, e comeam a aparecer demisses na indstria, depois de anos seguidos de contrataes.
     A economia brasileira  um paradoxo. O governo abre a mo e despeja recursos e incentivos em massa na economia, os juros nunca foram to baixos e o desemprego permanece em patamares mnimos. Tem-se aqui a combinao perfeita para injetar nimo e insuflar o consumo e os investimentos. Mas o PIB no d sinais de reao. Por qu? Uma primeira explicao estaria nos efeitos da crise do euro e do plido crescimento dos pases ricos. Mas s isso no explica a desacelerao. Sofrendo as mesmas presses externas negativas, as economias de Chile, Peru e Colmbia tm projeo de crescimento de 5% para este ano. O Brasil perdeu o gs por motivos mais profundos. H dez anos o governo no faz nenhuma reforma significativa com impacto positivo no principal indutor da riqueza: a produtividade. A melhora na infraestrutura foi medocre em todo esse perodo, fazer negcios continuou a ser um pesadelo burocrtico e tributrio, e a qualidade da mo de obra evoluiu  mas pouco. O crescimento econmico mais rpido, enquanto durou, foi resultado das polticas de crdito barato, que no podem ser mantidas indefinidamente, e do empuxo das reformas feitas na dcada anterior. Tudo isso, claro, impulsionado pela valorizao dos principais itens de exportao  a produo agrcola e os minrios. A balana comercial favorvel trouxe bilhes de dlares e alimentou a expanso do crdito. Agora, sem o vento externo a favor, os antigos gargalos voltam a estrangular o PIB. Ficou caro produzir no Brasil, por causa da alta no custo em fatores como eletricidade e mo de obra, e as indstrias tm optado por importar componentes e at mesmo produtos acabados, no lugar de ampliar os investimentos. Apesar de todos os incentivos, as engrenagens da economia giram em falso (veja o quadro ao lado).
     Confrontado com a letargia do PIB, o governo, em vez de se dedicar a projetos que diminuam as amarras ao investimento privado e libertem as foras do livre mercado, optou por redobrar a carga de suas intervenes na economia. Elevou a tributao dos investimentos e emprstimos internacionais, restringiu a compra de terras por estrangeiros, interveio na cotao do dlar, tolerou a inflao acima da meta, colocou barreiras aos produtos importados e passou a favorecer o aumento do contedo nacional em diversas reas, sobretudo na indstria automobilstica e ainda mais na produo de petrleo. Afirma o economista Eduardo Giannetti da Fonseca: O pas j havia avanado no processo de uma melhor definio da fronteira entre o estado e os mercados livres, mas agora h uma certa confuso no ar.  um efeito muito claro da crise de 2008, que acabou por legitimar uma tentao que j existia. O flanco se abriu, e o governo gostou da brincadeira. Com as polticas dirigistas, o governo pensou que estaria plantando as sementes de um Brasil Maior, para usar o nome de um dos pacotes planaltinos. Colheu o pibinho.
     A desacelerao da economia mostra que no basta baixar os juros e elevar o cmbio.  preciso devolver a confiana ao investidor de que o cenrio benigno vai se manter, diz o economista Felipe Salto, da Tendncias Consultoria. A mo pesada do estado brasileiro poderia ser acionada para cortar gastos pblicos e fazer as reformas que tragam o custo do pas a padres compatveis com o crescimento rpido e sustentvel. Em entrevista recente, Carlos Ghosn, presidente mundial da Renault-Nissan, revelou que  mais barato importar ao sul-coreano feito com minrio brasileiro para fabricar seus automveis do que comprar diretamente das siderrgicas brasileiras.
     A produtividade mdia da economia, medida pela quantidade que cada trabalhador produz, ficou estagnada na ltima dcada. A exceo  a agropecuria, cuja produtividade tem avanado a um ritmo mdio superior a 4% ao ano. Boa parte desse ganho se deve s pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria, a estatal Embrapa, um caso exemplar, mas tristemente nico, de como o governo pode incentivar o desenvolvimento.
     A agropecuria brasileira sofre com a logstica deficiente, mas mesmo assim resiste e avana. So inmeros os exemplos de problemas clamando pela mo salvadora do estado. Um deles: o custo para transportar o algodo produzido na Bahia at o Porto de Santos  o dobro do que se cobra pelo frete martimo de Santos at a China. A Ferrovia Norte-Sul poderia derrubar o custo de escoamento. As obras esto a cargo da estatal Valec, cujos ex-dirigentes respondem por crimes de superfaturamento e corrupo. Cad a mo do estado forte para tirar a ferrovia do papel? Nessa hora a mo do estado fica fraca e trmula.
     O modelo econmico brasileiro, to bem-sucedido no decorrer dos ltimos dez anos, est se esgotando. Nas pginas seguintes, economistas falam sobre qual  o papel ideal dos governos na induo do crescimento econmico e do equilbrio de foras necessrio entre a mo de ferro do estado e a mo invisvel dos mercados.

O GOVERNO LANA BILHES NA ECONOMIA...
(em reais, no ltimo ano)
NOVOS EMPRSTIMOS DO BNDES: 55 BILHES
TAXA SELIC: 8%
RESTITUIES DO IMPOSTO DE RENDA: 5 BILHES
COMPRAS DE MQUINAS E EQUIPAMENTOS: 8,4 BILHES
REDUES TRIBUTRIAS: 50 BILHES

...MAS O PIBINHO NO REAGE
Estimativa de crescimento do PIB em 2012: 2%

GIRANDO EM FALSO
A economia brasileira est presa a um ciclo vicioso que a impede de crescer mais rpido, a despeito dos estmulos concedidos pelo governo.

1- O governo d estmulos - Desde o fim do ano passado, houve vrias rodadas
de incentivos para estimular a economia. Alguns deles:
 Reduo da taxa Selic para 8%. H um ano, ela era de 12,5%
 Aumento na oferta de crdito pelos bancos pblicos, com juros mais baixos 
 Ampliao dos emprstimos do BNDES em 55 bilhes de reais
 Alvios tributrios no total de 50 bilhes de reais
 Compra, pelo governo, de 8,4 bilhes de reais em mquinas e equipamentos

2- O consumo se sustenta - Os estmulos do governo, assim como o baixo ndice de desemprego, contriburam para manter as vendas do comrcio em alta, ainda que em ritmo menos intenso. Mas h sinais de excesso de endividamento dos consumidores, e a inadimplncia aumentou 19% no primeiro semestre.

3- A indstria no reage - A produo industrial est em queda h quatro trimestres. O desempenho frustrante da economia levou a maior parte das fbricas a acumular estoques em excesso, adiando a retomada. Para completar, se j era oneroso produzir no pas, nos ltimos anos os custos de produo aumentaram ainda mais, por fatores como:
 Elevao de 246% na tarifa de eletricidade em oito anos
 Reajuste anual mdio acima de 10% no custo de mo de obra, um reflexo do mercado de trabalho aquecido
 Valorizao do real diante do dlar.
Isso sem falar em obstculos histricos, entre eles o caos nas leis trabalhistas e tributrias

4- As importaes sobem - Produzir no Brasil ficou mais caro. Alm disso, a recesso nos pases ricos provocou a sobra de oferta em escala mundial, derrubando o preo dos artigos industrializados produzidos l fora  sobretudo na sia. O resultado foi um crescimento das importaes, que roubaram espao das mercadorias nacionais. H dez anos, os importados representavam 10% das vendas de itens industrializados; hoje o porcentual atinge 22%

5- O governo intervm - Sem promover reformas estruturais para reduzir o custo Brasil, o governo tem optado por medidas paliativas para aliviar a perda de competitividade da indstria nacional. Algumas intervenes:
 Restrio a importaes de determinadas mercadorias, como calados e carros 
 Compra de dlares, para enfraquecer o real
 Restrio aos investimentos estrangeiros de curto prazo
 Redues pontuais de impostos, como a diminuio do IPI de carros e eletrodomsticos

O QUE A MO FORTE DO ESTADO DEVERIA FAZER
As exportaes de produtos agrcolas colocaram o Brasil na condio de sexta maior economia do mundo, mas, se no melhorar nos quesitos que aumentam a produtividade e a competitividade, o pas estar sempre vulnervel.

EDUCAO
 Ensino universitrio (pessoas com idade entre 25 e 34 anos)
Coreia do Sul 60%
Chile 30%
Mxico 20%
BRASIL 10%
 Desempenho dos alunos de 15 anos (posio no ranking comparativo de 65 pases, no teste Pisa)
China (Xangai) 1
Coreia do Sul 2
Chile 44
BRASIL 53

BUROCRACIA
 Procedimentos para abrir uma empresa
Canad 1
Mxico 6
ndia 12
BRASIL 13
 Nmero de dias para abrir uma empresa
Nova Zelndia 1
Mxico 9
China 38
BRASIL 119

INFRAESTRUTURA
 Custo para exportar um continer (em dlares)
Malsia 450
China 500
Mxico 1450
BRASIL 2215
 Custo da eletricidade na indstria (em euros por kWh)
Argentina 0,04
Mxico 0,05
Europa 0,06
BRASIL 0,10

CINCIA
Investimentos em pesquisa (em % do PIB)
Israel 4,9
Japo 3,2
Coreia do Sul 3,2
China 1,5
BRASIL 1

CUSTO TRABALHISTA
 Preo da mo de obra na indstria automobilstica, incluindo encargos sociais (em euros por hora)
ndia 1,2
China 1,3
Mxico 2,6
BRASIL 5,3

Fontes: Banco Mundial, PricewaterhouseCoopers, Instituto Ao Brasil (IABr) e OCDE.

COM REPORTAGEM DE ANA LUIZA DALTRO E MARCELO SAKATE


2.  MELHOR DE MOS DADAS
Jornalistas de VEJA entrevistaram quatro economistas sobre o que mudou e o que no mudou nas sempre tensas relaes entre a mo pesada do estado e a mo invisvel do mercado  esta, a famosa expresso de Adam Smith, patrono da cincia econmica, para descrever o conjunto de empresas, capitalistas e consumidores. A concluso deles  que estado e mercado so complementares, e no inimigos em luta de vida ou morte.

VITO TANZI
O que resistiu ao tempo e s mudanas de conjuntura e no muda nas atribuies do estado? 
O papel regulador. O estado tem de fazer o mercado funcionar da melhor forma possvel. Cabe ao estado investigar e corrigir o abuso de poder econmico, a falta de transparncia, a formao de monoplios e os favorecimentos. Todas as demais distores decorrem da negligncia do estado nesses fundamentos. A m distribuio de renda decorre do mau funcionamento do mercado, mas cabe ao estado corrigir a falha que deu origem  desigualdade. H, porm, uma diferena entre proteger os vulnerveis e redistribuir a renda. A ideia de redistribuir  que nos levou ao aumento insustentvel do gasto pblico. Devemos nos preocupar com o nvel de renda dos 20% mais pobres da populao. O estado deveria ter compromisso com as pessoas realmente pobres, os mais vulnerveis. Os programas de educao para todos ou sade para todos no so fundamentais. Eles so aceitveis, mas desde que se mostrem exequveis e no levem o pas  falncia.

Quais deveres do estado no mudam, seja o governo liberal ou conservador? 
Neste comeo de sculo, parece ser uma molstia mundial a insistncia dos governos em no reduzir seu volume de gastos. Acima de um determinado limite, os gastos pblicos se tornam insustentveis. Como quase sempre existem tambm enormes dficits pblicos, os impostos no podem ser reduzidos. Mas os gastos pblicos podem e devem ser cortados. O limite da insustentabilidade varia de pas para pas, mas, do ponto de vista puramente emprico, percebo que, quando um governo gasta mais do que 35% do produto interno bruto (PIB), ele est pondo em risco a estabilidade da economia e o bem-estar da populao. Eu diria que 35% do PIB  o limite de gastos pblicos acima do qual um pas, seja ele qual for, comea a correr o risco de falir.

Continua sendo papel dos governos reativar economias em crise? 
O estado nem tinha essa funo at a dcada de 30, quando John Maynard Keynes publicou seu famoso livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Desde ento, ela tem feito parte da pauta de atuao dos governos. Eu aceitei a economia keynesiana, mas com o tempo tive a chance de conhecer seus limites. Com Keynes, surgiu a ideia de que o governo, em situaes especiais, pode contratar um grupo de trabalhadores para abrir um buraco e outro grupo para tap-lo, mantendo, assim, certo nvel de emprego. Se isso funcionou durante a Grande Depresso americana dos anos 30  ainda motivo de debate. Mas, para mim, parece fora de dvida: hoje no funciona mais. A ideia keynesiana de que os empregos so intercambiveis  uma fico, sobretudo nas economias modernas, que exigem mo de obra altamente especializada. Por essa razo, em muitos pases as estatsticas mostram, em aparente paradoxo, altos nveis de desemprego e, ao mesmo tempo, vagas sobrando.

Depois da hegemonia da economia de mercado no processo de globalizao, estamos assistindo  volta do capitalismo de estado? 
Parece ser a tendncia, mas o capitalismo de estado no  monoltico. Compare a Argentina e a Coreia do Sul. Os dois pases seguiram o mesmo caminho, com o mesmo tipo de poltica industrial, mas executaram o projeto de modo diferente. Estive na Coreia pela primeira vez no comeo dos anos 80. Fui como consultor. Certo dia, levaram-me para visitar uma fbrica de carros. Era a Hyundai. Pensei que eles fossem loucos, pois nunca seriam capazes de competir com o resto do mundo. Como sabemos, conseguiram. Os sul-coreanos cometeram alguns erros, mas acertaram muito. Criaram uma economia regulada, mas no restritiva, e montaram um dos melhores sistemas de educao do mundo. A Argentina fez o contrrio, estatizou para manter vivas empresas que deveriam desaparecer, e agora est pagando o preo.

A China tem sido vista como a grande vitrine do sucesso do capitalismo de estado. Procede? 
A China  um estado autoritrio. No comeo, um sistema assim funciona bem. O governo  gil para executar projetos porque atropela interesses e lobbies. Na democracia, tudo precisa ser negociado, e isso leva tempo. No atual estgio, tudo  fcil para a China. O pas absorve tecnologia do exterior, aprimora seu sistema
educacional, chama de volta seus melhores profissionais. O problema  que essas vantagens  econmicas, frise-se  acabam. Os interesses e lobbies comeam a vingar, o governo autoritrio perde o poder inicial de higienizar o mercado. A China ainda est se beneficiando do autoritarismo, mas os problemas aparecero, acredito, dentro de uns cinco anos.

Entre o autoritarismo chins e a liberdade total dos mercados, deve existir alguma coisa mais virtuosa, no? 
Sim. um sistema de mercado sabiamente regulado. No acredito em fundamentalismo do mercado como a escola de Chicago. No acredito em Friedrich Hayek, o expoente da escola austraca. Hayek acreditava que o sistema de preo nos oferece todas as informaes de que precisamos sobre a economia, dispensando qualquer outro mecanismo de anlise. Obviamente, nem tudo est no preo. Quem compra um pacote turstico para as frias no sabe, antecipadamente, se o preo embute a real qualidade dos servios que vai receber. Quando levo meu carro  oficina, no sei quanto vai custar o conserto nem tenho ideia se os mecnicos faro de fato o servio pelo qual cobraram. Nesses casos, o preo no deu as informaes necessrias.  preciso regular tambm os programas do estado de bem-estar social. Na Itlia, havia gente se aposentando aos 30 anos de idade. Com penso integral. Os governos precisam perceber as distores antes que elas virem desastres e agir. Se os bancos tm de ser salvos porque ficaram grandes demais para falir, parece-me bvio que eles no podem ser livres para chegar a ficar to grandes. O governo precisa se antecipar ao problema e fati-los, cumprindo sua misso essencial de garantir que o mercado funcione da melhor forma possvel.

Entre os pases que formam o Bric, quais as economias mais bem equipadas para enfrentar os desafios propostos pelo sculo XXI? 
Pela ordem: ndia em primeiro, depois o Brasil, em seguida a China e, por ltimo, a Rssia.
ANDRE PETRY DE WASHINGTON

MALSON DA NBREGA
A crise de 2008, deflagrada por Wall Street, marcou o comeo da desconfiana das pessoas com os sbios da economia? 
As crises so inerentes ao sistema capitalista, porque em alguns momentos se produz uma juno excessiva de riscos, ou porque prolifera a ideia de que o mercado j resolveu todos os problemas, ou porque esto todos em meio a uma euforia. Onde  que no tem crise? Em Cuba e na Coreia do Norte. No entanto, eles esto miserveis. A crise de 2008 no  assim to diferente de outras que ocorreram no passado. Elas tm em comum a persistncia no erro, o que Andrew Haldane, ex-diretor do Banco da Inglaterra, chamou de miopia diante do desastre, uma caracterstica da mente humana que nos torna propensos a apagar os sentimentos fortemente negativos. Um exemplo disso  o motorista apressado que presencia um acidente grave na estrada e automaticamente diminui a velocidade. Aps alguns minutos, ele j est acelerando o carro a toda novamente e se expondo aos mesmos riscos que produziram o acidente que ele acabou de ver. Portanto, as duas nicas certezas que temos so, primeiro, que outra crise to grave vir, e, segundo, que ela no ser produzida por emprstimos podres, como em 2008. A cada crise, criam-se mecanismos para evitar que ela se repita, mas as inovaes e as novas ondas de euforia fazem com que elas aconteam.

Ou seja, os reguladores, as pessoas que precisam vigiar o sistema financeiro, esto, a exemplo dos generais, sempre lutando a ltima guerra e no a prxima? 
Muito se disse que faltou fiscalizao sobre os bancos de Wall Street e isso levou aos abusos que produziram a crise. Acho que foi muito mais um problema de regras. O sistema ingls e o americano so muito baseados nas instituies. Os inspetores partem do princpio de que os bancos esto cumprindo as regras. Eles no fiscalizam se os bancos esto assumindo riscos excessivos, pois consideram que, se existe uma norma que regula isso, ela est sendo cumprida.

Mas os bancos estavam oferecendo no mercado papis podres baseados em emprstimos feitos a pessoas que no queriam nem podiam pagar... 
As autoridades americanas poderiam ter feito uma regra determinando que nenhum banco poderia oferecer crdito que no estivesse associado a um pagamento desde o incio. Mas  fcil falar depois do leite derramado. O fato  que a crise de 2008 foi resultado de inmeros fatores. Um deles, pouco estudado, foi o desequilbrio econmico provocado pelos imensos supervits comerciais da China, que aumentou brutalmente a liquidez comprando papis pblicos americanos.

Um estado mais forte no seria o bastante para evitar as crises? 
O economista Charles Kindleberger catalogou, desde o sculo XVII, a ocorrncia de 300 crises graves. Portanto, elas parecem mesmo inevitveis, seja qual for o peso da mo do estado. O que importa mesmo, quando se fala do papel do estado,  saber que ele  forte quando  capaz de criar as condies propcias ao empreendimento e  prosperidade.

Que condies so essas? 
A capacidade para regular os mercados e impedir o abuso do poder econmico. os cartis e os monoplios: a capacidade de impor pesos e medidas uniformes, fundamentais para evitar perdas de eficincia; a capacidade de exercer o monoplio da violncia, para garantir a segurana das pessoas: a capacidade de prover educao fundamental de qualidade e de defender o territrio. Ou seja,  forte o estado que cria um pano de fundo a partir do qual se desenvolve a atividade econmica, um estado que garante o funcionamento de um Judicirio independente, preserva os direitos de propriedade e a validade dos contratos. Acima de tudo isso,  preciso conquistar a accountability, que quer dizer prestar contas, em ingls, ter um governo responsvel perante a comunidade, capaz de gerir bem os recursos, ter transparncia e se submeter, periodicamente, ao julgamento dos eleitores. No regime autoritrio, erroneamente confundido com estado forte, no h accountability.

O senhor acha que as pessoas deveriam temer menos as crises? 
No  isso, mas elas precisam saber que o que gera a riqueza das naes  essa conjugao de mercado e instituies. Uma das funes do conjunto de instituies  prevenir e reprimir o abuso de domnio de mercado, mas isso no se traduz automaticamente na garantia de que nunca mais haver crises econmicas graves.
O economista MALSON DA NBREGA, da Tendncias Consultoria,  ex-ministro da Fazenda e foi entrevistado por MARCELO SAKATE

IAN BREMMER
 correto chamar a crise atual de uma crise do livre mercado? 
No estamos nos defrontando com a derrocada do sistema de livre mercado. Temos mais o fracasso de polticos que no conseguiram criar as regras inteligentes necessrias para o capitalismo de livre mercado funcionar nem as condies para o crescimento a longo prazo da economia.

Em relao  crescente interveno do estado, existe uma diferena palpvel entre os lderes americanos e os europeus? 
H agora um grande senso de urgncia dos governos na Europa porque a zona do euro enfrenta uma crise imediata. Os Estados Unidos enfrentam o que chamamos de maldio do porto seguro. Como h volatilidade no resto do mundo, o dinheiro continua a ser aplicado nos ttulos do Tesouro americano, mesmo depois que a dvida do pas foi rebaixada. Mas, sim, concordo, est ocorrendo um envolvimento maior do estado em todas as partes do mundo, principalmente porque as pessoas se convenceram de que o capitalismo dominado pelo estado foi o que permitiu  China, o mais influente dos mercados emergentes, passar pela crise financeira com danos mnimos. Mas ainda no temos prova de que essa tendncia veio mesmo para ficar.

Como saber em quais circunstncias a interveno do estado  justificvel e quando ela  negativa? 
 uma questo de equilbrio. Vou fazer uma analogia. Os rbitros no devem decidir o resultado de uma partida de futebol, mas  impossvel jogar sem eles. O capitalismo de livre mercado precisa de regras desenhadas de maneira inteligente e que tenham sido estruturadas de forma confivel para assegurar a competio mais eficiente possvel, mantendo a sade do sistema. Existem bons exemplos de intervenes limitadas e inteligentes. Nos Estados Unidos, os reguladores negligenciaram at as responsabilidades mais bsicas na monitorao da explorao de petrleo no Golfo do Mxico. Mas, no setor de tecnologia, os Estados Unidos tendem a promover a inovao dando estmulos de maneira inteligente.

A administrao da presidente Dilma Rousseff  mais liberal ou mais conservadora, em termos de interveno do estado, do que os governos da alem Angela Merkel, do francs Franois Hollande e da argentina Cristina Kirchner? 
Em primeiro lugar, temos de deixar claro que o Brasil no pode ser descrito como um pas que tenha adotado o capitalismo de estado. As empresas controladas pelo estado representam 38% do valor da bolsa brasileira. Na Rssia, essa proporo  de 62%. Na China, 80%. A diferena no  simplesmente uma questo de intensidade. Reflete uma cultura poltica inteiramente diferente. Na comparao proposta por voc com os pases mencionados, vejo que o estado brasileiro est mais ativamente envolvido nas atividades de energia e minerao do que os governos europeus. Mas o tratamento ao investimento estrangeiro no Brasil  muito diferente do modelo cada vez mais tolo que vemos na Argentina. A presidente Dilma Rousseff tem perseguido um equilbrio inteligente entre o controle da inflao, que foi uma pea central do sucesso do governo Lula, e a ascenso de um nmero maior de pessoas  classe mdia.
IAN BREMMER, presidente do Eurasia Group,  autor de The End of the Free Market e foi entrevistado por MARCELO SAKATE

RAGHURAM RAJAM
A presena do estado empresrio na economia  sempre ruim? 
Eu no acho que seja necessariamente ruim ter uma economia mista, em que existam companhias estatais em alguns setores. O problema  quando os governos tentam interferir na gesto das empresas controladas pelo estado; quando tentam direcionar decises mais por razes polticas do que econmicas. A questo  como obter os benefcios de uma economia mista, em que possa existir competio entre o setor pblico e o privado, em vez das dificuldades que so prejudiciais e foram criadas pela interveno poltica. Por um lado, a interferncia poltica tende a prejudicar as estatais, mas os privilgios, por outro lado, criam o efeito contrrio, em que o governo compra mais das empresas estatais, que tambm compram mais de outras companhias controladas pelo estado.

Existe algum modelo de economia mista que se aproxime do ideal? 
 difcil apontar um modelo que seja um exemplo por completo, mas eu cito a Frana, que tem um modelo de economia mista razoavelmente bem-sucedido, no sentido de que o PIB do pas ainda  muito elevado. Podemos at argumentar que se trata de um modelo potencialmente funcional tambm para outros pases.

O modelo brasileiro  funcional e sustentvel? 
O modelo de crescimento puxado pelo consumo, com transferncias e crdito para a classe mdia e para a classe mdia baixa, foi muito bem-sucedido. Mas o problema  que isso se esgotou. A questo para o governo brasileiro  definir o prximo modelo. O Brasil tem de enfrentar o fato de estar se tornando uma economia de custos muito elevados; deveria ter como foco o aumento dos investimentos e da poupana domstica. O pas ainda  muito dependente de poupana externa. Precisa aprimorar a infraestrutura fsica e a oferta de capital humano, fomentar a competio e a abertura da economia. So coisas que a mo forte do governo poderia fazer e revigorar o Brasil.
RAGHURAM RAJAN  professor da Escola de Negcios Booth na Universidade de Chicago e foi entrevistado por MARCELO SAKATE


3. DA MO DE FERRO  MO INVISVEL

+ ESTADO
mais dirigista, intervencionista e pr-estado  o lder.

KIM JONG-UM - Ditador da Coreia do Norte
FIDEL E RAL CASTRO  Ditadores de Cuba

A prtica: A ilha dos irmos Castro e a Coreia do Norte restaram como os dois fsseis vivos do comunismo real, depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, e do desmantelamento da Unio Sovitica, em 1991. A maior parte das propriedades  de uso coletivo. A atividade econmica  centralizada no estado. Inexistem as liberdades individuais, polticas e de imprensa
A teoria: Em tempos melhores, os regimes de Cuba e da Coreia do Norte se intitulavam com orgulho marxista-leninistas. O alemo Karl Marx (1818-1883) idealizou a sociedade sem classes e sem direito  propriedade do comunismo. O russo Vladimir Lenin (1870-1924) pontificou sobre a tomada do poder pela revoluo e sua manuteno com a eliminao dos dissidentes e o terror.

CRISTINA KIRCHNER - Presidente da Argentina
A prtica: Sucessora de seu marido, Nstor Kirchner, ela confiscou empresas privadas e reestatizou outras. As operaes de importao e exportao exigem aprovao estatal, que  dada no interesse do governo de segurar dlares no pas. Sem crdito interno nem externo, o governo se financia imprimindo dinheiro, o que produz inflao alta  cujos ndices reais so falsificados para parecer baixos
A teoria: A equipe econmica argentina se diz adepta do ingls John Maynard Keynes e do argentino Ral Prebisch, que sancionam o ativismo do estado na economia. Mas o que move mesmo o cristinismo  o populismo herdado do patrono Juan Domingo Pern (1895-1974) e baseado na manipulao emocional das massas e na arregimentao de militantes violentos

DILMA ROUSSEFF - Presidente do Brasil
A prtica: A garantia das liberdades individuais e de imprensa  sagrada em um regime de centro-esquerda com respeito absoluto pelo estado de direito e pelos contratos mas com vocao intervencionista na economia. Afina-se com o modelo de planejamento econmico e de poltica industrial, uma verso menos dirigista mas inspirada nas prticas do governo ditatorial da China
A teoria: Se um dia existir um dilmismo, ele ser uma variante tropical das teorias de John Maynard Keynes (1883-1946). O ingls considerava essencial aos governos manter estmulos ao consumo com crdito abundante e juros baixos. Mas o intervencionismo e o microgerenciamento ficam por conta de Dilma e Guido Mantega. Keynes seria defensor do PAC, mas condenaria as mexidas nas alquotas de IPI, o subsdio  gasolina e o aumento das tarifas de importao

+ MERCADO
liberais pr-mercado

BARACK OBAMA - Presidente dos EUA
A prtica: Obama herdou os efeitos da monumental crise de 2008. Atacou-os com o brutal aumento da liquidez, por meio da injeo de 3 trilhes de dlares na economia e de taxas de juros beirando zero. A dvida pblica dobrou em quatro anos, indo de 5 trilhes para 10 trilhes de dlares. Contrariando a tradio liberal americana, ele conseguiu aprovar um sistema que obriga todo americano a comprar um plano de sade e quer financiar os gastos sociais com o aumento de impostos dos ricos
A teoria: Pela torrente de gastos pblicos,  inegvel a influncia de John Maynard Keynes e de seu principal seguidor nos Estados Unidos, o prmio Nobel Paul Samuelson (1915-2009), conselheiro do governo John Kennedy

ANGELA MERKEL - Primeira-ministra da Alemanha
A prtica: Austeridade permanente, incentivo  educao de qualidade e  poupana, foco nas exportaes, tolerncia zero com a inflao. O governo  tocado por uma burocracia altamente qualificada, selecionada e promovida com base no mrito e  por servir ao estado e no ao governante  em boa parte imune s trocas de comando poltico no pas
A teoria: Os sucessivos governos alemes do ps-guerra orientam-se pelos princpios de uma variante do liberalismo econmico chamada ordoliberalismo. Sua maior figura terica foi Walter Eucken (1891-1950). O ordoliberalismo sustenta que o governo precisa criar um ambiente jurdico propcio  economia de mercado e ser capaz de manter altos os nveis de competio entre as empresas, pois s assim a economia consegue atingir seu potencial mximo de crescimento

DAVID CAMERON - Primeiro-ministro da Inglaterra
A prtica: Depois de uma dcada de governo trabalhista, houve a reviso das polticas liberais e de reduo do estado na economia postas em prtica pela primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-1990). Com Cameron, os conservadores voltaram ao poder. Ele herdou um pas em crise, com as finanas pblicas arrebentadas. Adotou medidas de austeridade fiscal e reduo das polticas de bem-estar social
A teoria: O poltico conservador ingls e primeiro- ministro Harold Macmillan, autor de The Middle Way (1938), props um modelo liberal mas com polticas de assistncia social para os desafortunados. Foi precursor da Terceira Via

RONALD REAGAN - Presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989 e morto h oito anos
A prtica: O governo no  parte da soluo, o governo  o problema, sustentava Reagan, que desregulamentou setores antes excessivamente amarrados da economia, como a aviao e os bancos. Fazia dupla com Margaret Thatcher, a Dama de Ferro, que salvou a Inglaterra do caos e da ditadura dos sindicatos, abrindo o pas  concorrncia externa, diminuindo impostos e cortando taxas, com aumento de produtividade. Com uma frase famosa, Reagan caricaturou o funcionamento irracional dos governos dirigistas, que ele detestava: Se um negcio anda, imposto nele! Se ele continuar andando, regule-o! Quando ele parar, d-lhe subsdio!
A teoria: A base terica para o thatcherismo e a reaganomics (economia de Reagan) veio de Milton Friedman (1912-2006) e do austraco Friedrich Hayek (1899-1992), ganhadores do Nobel de Economia e dois dos maiores nomes do liberalismo econmico. Ambos foram intransigentes defensores dos direitos individuais, vendo como tentativas totalitrias todas as iniciativas de governo de coibi-los em nome do bem coletivo


4. NAS GARRAS DO LEVIAT ARGENTINO
A interveno do cristinismo na economia  to intensa que empresas de celular se veem obrigadas a vender vinho e os cidados no conseguem fazer viagens internacionais.
TATIANA GIANINI, DE BUENOS AIRES

     A paisagem da Rua florida, em Buenos Aires, j no  mais to vistosa. No comeo da tarde, seu calado continua cheio de turistas brasileiros, vendedores e trabalhadores do centro da cidade, que aproveitam a hora do almoo para passear ou para fazer compras. Nas vitrines, porm, h espaos vazios e anncios de se alquila, aluga-se. Dez estabelecimentos, incluindo lojas de telefone celular, de eletrnicos, de roupas e uma casa de cmbio, esto desocupados. Trata-se de uma aberrao para um endereo to disputado. No ano passado, no havia uma nica loja vazia. Muitas foram fechadas porque dependiam da importao de produtos e no foram capazes de resistir s travas impostas pela presidente Cristina Kirchner e fiscalizadas pelo secretrio de Comrcio Interior, Guillermo Moreno. Cmeras fotogrficas, lavadoras de roupa, celulares, tnis, ferros de passar e notebooks esto em falta. As casas de cmbio, por sua vez, s podem vender moeda estrangeira a quem tiver autorizao da burocracia estatal.
     A cena retrata o que acontece quando um governo intervm com mo pesada e de forma improvisada na economia. No apenas os argentinos tiveram sua liberdade de ir e vir afetada, pois agora dependem da boa vontade do estado para poder viajar, como h menos opes de consumo e eles ainda podem perder o emprego. A queda da atividade econmica j afetou 20.000 postos de trabalho desde o ano passado. Outros 30.000 se mantm apenas porque o estado (ele, de novo) subsidia uma parte de sua renda. Est difcil viver nesse clima de incerteza. Tenho medo de perder meu sustento, diz Florencia Roberts, que trabalha h um ano em um restaurante japons na capital. No cardpio, o dono anexou um bilhete com a mensagem: Porque nosso querido amigo Guillermo Moreno no quer que os negcios cresam na Argentina, desculpem a falta de produtos no cardpio.
     A Afip, o rgo equivalente  Receita Federal brasileira que determina quem pode comprar dlares e quantos, no poupa ningum. Nas clnicas mdicas e nos hospitais, faltam medicamentos, luvas e tecidos para cirurgias. Precisei adiar operaes por no conseguir comprar lentes intraoculares para alta miopia que no so produzidas aqui, conta o oftalmologista Omar Lpez Mato. No bairro de Once, onde h centenas de lojas de tecidos, brinquedos e eletrnicos importados, vendedores comearam a fazer pequenos protestos porque no tm como repor os itens de suas prateleiras. Imigrantes no conseguem dlares para visitar seus familiares e argentinos que economizaram para viajar de frias ao exterior tm de mudar de planos, pois muitos no recebem autorizao da Afip para fazer o cmbio, com a justificativa de que o salrio no condiz com os gastos da viagem. Quando lia sobre as restries impostas por Hugo Chvez aos venezuelanos para comprar dlares, eu achava uma loucura. Agora meu pas est seguindo pelo mesmo caminho, diz a publicitria Mara Sofa Rebagliati, que teve negado seu pedido de cmbio.
     Os mais grosseiros movimentos do governo Kirchner para cercear a economia ocorreram em outubro do ano passado, dias aps a reeleio de Cristina em primeiro turno, com 54% dos votos. Naquele ms, a economia argentina comeou a perder o flego, embora o governo ainda insistisse no aumento exagerado dos gastos pblicos e na ideia de que a inflao descontrolada no passava de uma inveno dos grupos capitalistas. A alta dos preos, cujos ndices reais no podem ser divulgados, aumentava o custo de insumos e de mo de obra, reduzindo a competitividade da produo nacional e freando o crescimento. O pas ainda sofria para obter financiamento externo, reflexo da baixssima confiana dos investidores depois do calote da dvida, em 2002. O risco era, caso a economia desacelerasse bruscamente, o pas no ter dlares para honrar compromissos externos.
     O plano posto em prtica pela presidente para resolver essa situao exacerbou a tendncia estatizante da dinastia Kirchner, iniciada pelo marido de Cristina, Nstor, presidente entre 2003 e 2007. Para se financiar, o governo imprime moeda, o que aumenta a inflao. Para evitar o esvaziamento das reservas internacionais, decidiu-se restringir a compra de dlar. As importaes, outra fonte de evaso de moeda estrangeira, passaram a ser totalmente controladas. O efeito foi o contrrio do esperado. A restrio criou uma avidez to grande pelo dlar que o seu valor no mercado paralelo supera em 30% o do oficial. Os argentinos guardam em casa mais de 160 bilhes de dlares, o dobro da cifra de 2001. Os entraves alfandegrios prejudicam vrios setores da indstria nacional. Mais de 80% do que o pas importou no ano passado foi de itens indispensveis para manter as linhas de produo, como mquinas, insumos e energia. Sem acesso a esses bens, no nos resta outra soluo a no ser paralisar a produo, e o governo parece no entender que isso se converte em demisses e em retrao econmica, disse a VEJA o executivo de uma montadora de automveis que no quis se identificar, temendo represlias. Em abril, pela primeira vez em trinta meses, as exportaes argentinas retrocederam 6%. A previso  que o PIB, depois de se expandir quase 9% em 2011, neste ano crescer menos de 2%.
     Na maioria das vezes, o departamento que barra os pedidos  a Secretaria de Comrcio Interior, presidida por Moreno. Ele interfere pessoalmente nas negociaes das empresas nacionais com os clientes e fornecedores externos. Nem a compra de artigos esportivos escapa do seu crivo, motivo pelo qual a seleo nacional de beisebol, por exemplo, est sendo obrigada a treinar com bolas velhas. Na lgica simplista de Moreno, o pas no deve importar nada que possa ser produzido internamente. No incio, os itens barrados eram aqueles que chegavam prontos, como os talheres da Tramontina e as lavadoras da Electrolux fabricados no Brasil. Mais recentemente, as restries passaram a abranger tambm componentes, insumos e bens de capital.
     Moreno ainda decidiu, sem nenhum respaldo na lei, que para importarem qualquer coisa os empresrios precisam exportar algo com o mesmo valor. A regra do uno por uno criou esquisitices antolgicas, como importadores de aparelhos de celular tendo de vender batata congelada e vinho para obter crdito exportvel. O implacvel secretrio tambm criou a arca de Moreno, como foram apelidadas as misses comerciais feitas ao exterior para impulsionar a venda dos produtos nacionais. Em qualquer lugar do mundo, essas viagens so animadas pela esperana de fechar negcios lucrativos com novos clientes. Para os argentinos, o significado  outro. Eles embarcam para pases como Angola e Azerbaijo s para agradar ao governo. Muitos empresrios acreditam que ao viajar com Moreno podem ter licenas de importao aprovadas. Recusar um convite dele seria um suicdio comercial, diz o economista Gustavo Segr, da consultoria Center Group. Conta-se at que, numa dessas viagens, o prprio Moreno serviu a comida no avio: Pasta o carne?. Os empresrios, em pnico, no sabiam qual opo, massa ou carne, era a mais patritica na viso do secretrio.  apenas uma piada, mas muitos argentinos acreditam que isso tenha ocorrido mesmo.
     O acosso do estado a empresrios e aos cidados apenas refora a insegurana jurdica no pas. Na semana passada, os donos de uma imobiliria de Buenos Aires queixaram-se em uma reportagem do jornal Clarn da queda nas vendas em razo das travas ao dlar  a moeda  usada h anos para fechar todos os negcios do setor, inclusive os aluguis. Na sexta-feira passada, a imobiliria foi proibida pela Afip de continuar operando, por ordem direta de Cristina Kirchner. A ingerncia do cristinismo na economia chega a ponto de obrigar os bancos a emprestar 5% de seus depsitos a empresas, para incentivar o investimento. A taxa de juros imposta pelo governo, inferior  inflao real, no  suficiente para cobrir o custo do dinheiro. Os banqueiros sero, assim, obrigados a assumir prejuzos. Cristina Kirchner inventou o narcisismo de estado, to embasbacado consigo mesmo que no percebe a iminncia da prpria runa.

Emprego ameaado - A portenha Florencia Roberts, de 25 anos, trabalha h um ano como assistente administrativa em um restaurante japons no bairro de Palermo Hollywood, em Buenos Aires. H alguns meses ela tem visto o local sofrer com a falta de produtos cruciais para a culinria japonesa, como salmo, gengibre, arroz especial, wassabi e at hashis, os pauzinhos orientais. Esses itens eram todos importados. Nos ltimos dias, a dificuldade tem sido encontrar atum-vermelho, do Equador. Quando os clientes ligam para fazer reserva, eu aviso que tivemos de tirar os pratos com atum do cardpio, diz Florencia. Seu patro, o francs Toufic Reda, no sabe por quanto tempo conseguir manter o negcio, que emprega trinta pessoas.

Sapato por sapato - Mesmo sem a existncia de normas legais para isso, o governo tem exigido informalmente dos empresrios cujo negcio dependa da compra de produtos estrangeiros que exportem o mesmo valor em itens fabricados na Argentina. O secretrio de Comrcio Interior, Guillermo Moreno, costuma ligar pessoalmente para cobrar o cumprimento dessa regra. Para no ficar sem estoque em suas lojas de calados brasileiros em Buenos Aires, Alejandro Zylbersztein decidiu produzir em solo argentino um modelo de sapato para ser vendido no Brasil. Os custos de produo locais, no entanto, cresceram a ponto de encarecer demais o produto para os brasileiros. A estratgia no deu certo, e eu continuo sem conseguir repor os estoques das minhas lojas, diz Zylbersztein.

Presos  Argentina - O casal equatoriano Fabin Zambrano, mdico, e Katiuska Andrade, chef de cozinha, deixou a casa de cmbio na Rua Florida frustrado. Os dois no obtiveram autorizao do governo argentino para comprar os 1000 dlares que usariam numa viagem de urgncia ao Equador para visitar o pai de Zambrano, que est doente. Vou ter de pagar 30% a mais no cmbio negro, diz o imigrante. O casal tambm j no consegue enviar dinheiro a seus familiares. Teramos de fazer uma transferncia bancria internacional a um custo altssimo, diz Katiuska.

A vez dos cortinazos - Nas ltimas semanas, os donos das lojas do bairro portenho de Once passaram a fazer os chamados cortinazos  baixam as persianas das vitrines para protestar contra as barreiras s importaes impostas pelo governo. Em seguida, muitos funcionrios desses estabelecimentos ocupam as ruas com cartazes em punho. Meu patro no consegue produtos para sua loja e, com a queda nas vendas, temo perder o emprego, afirma Walter Bernardo, de 30 anos, vendedor em uma loja de videogames.

Que comam mas! - A safra de uvas produzidas na Argentina terminou em fevereiro. Na entressafra nacional, o pas costumava importar os cachos do Brasil. Como as licenas para comprar frutas de fora esto sendo negadas pelo governo, no h uvas no pas. Entre os prejudicados esto os empresrios Jose Olmedo e Martin Scallan, donos de um entreposto no Mercado Central de Buenos Aires. S neste ano, eles j viram ser interrompido o fornecimento de melo, manga e papaia do Brasil, de aspargos do Peru e de kiwi do Chile. O governo considera esses produtos suprfluos e acha que os argentinos devem consumir apenas frutas locais, como as mas. Num mundo globalizado, isso no faz sentido, diz Olmedo.

Sem preenchimento - Desde o fim do ano passado, os cirurgies plsticos Julio Ferreira e Julio Gustavo Ferreira, pai e filho, tm de improvisar para deixar as portenhas mais belas. Faltam lminas para bisturis, luvas de alta sensibilidade e tecidos descartveis usados para proteger os pacientes em cirurgias. Por isso, os mdicos tiveram de recorrer a tecidos convencionais, que precisam ser lavados e esterilizados depois de usados.  uma complicao. Fomos obrigados a substituir uma substncia para preenchimento facial, antes importada do Brasil, pelo cido hialurnico, de efeito menos duradouro, diz Julio Ferreira, que, por garantia, aumentou o estoque de outros produtos dos quais depende sua atividade.

